segunda-feira, 2 de maio de 2011

L'Amour!

 

Deixo os nobres leitores com as palavras da Juliana, na certeza que faço das palavras dela, as minhas.

Amor.

E depois de tanto se autoflagelar com amores impossíveis, com histórias mal vividas, com projetos desbotados, ela construira uma muralha em volta do próprio coração. Foi atrás dos melhores artíficies, que com as mais duras pedras fariam a melhor fortificação. Impossível ser transporta, destruida,  sequer abalada. Com afinco a fortaleza foi construída. Foram necessários meses de dor, de lágrima, de solidões noturnas, de cigarros fumados até o fim, de diálogos etílicos, de paciência. Enfim, pronta. Nada poderia permear aquela construção tão sólida. O coração então encontrava-se totalmente protegido.
Levava nos olhos, bem no fundo deles, essa marca da vida. O peso que carregava no corpo era notório. Apesar do sorriso sempre aparente no rosto, daquela capa tão habilmente treinada, vez por outra deixava transparecer que ter trancafiado seu órgão vital tinha sido determinante.
A vida é bela, mas também nos traz sofrimentos inimagináveis. Destes sofrimentos surgem certezas, e a cada nova certeza que adquirimos, perdemos parte da nossa inocência. A vida é bela, mas o mundo é grotesco. Da sua feiúra brotam dúvidas, que botam em cheque nossas virtudes, e quando cada uma das nossas virtudes falha, endurecemos nossas almas.
Ela era tal rocha. Ou ao menos acreditava que era.
Então  ele apareceu. O sorriso também endurecido pelos anos. As descobertas de si mesmo, as decepções, as tristezas. Trazia tudo consigo na forma com que suas mãos gesticulavam cuidadosas, na forma como andava calmo. Os tropeços no caminho trouxeram a cautela de seus passos.  Ela não mostrou qualquer entusiasmo. Ela era assim. Mal se apercebia das pessoas. E ele foi chegando mais perto porque a sua frieza não o inibia.
Como pode ele andar pelos campos do  coração dela e destruir, com um simples olhar, cada muralha erguida? Como pode ele provar, com um simples gesto, que todas as promessas são em vão? Com um simples sorriso ele derruba todas as  certezas, e com sussurros faz brotar a inocência que outrora ela imaginava para sempre perdida.
 O amor é feito de incertezas.
E de súbito ela é toda dúvidas. Pode mesmo um homem abalar tanto os alicerces de uma mulher, moldando-a de rocha à água? Quem é ela e que sempre que fala reduz a pó toda a vivência que ela acreditava ter? Com todas as certezas abaladas, agora ela nada era senão um emaranhado de lembranças.  Dele, de seu sorriso, de sua voz, de seu cheiro. Ninguém sabe se ficaram juntos, se ficarão, se a história tem uma continução. E todos os questionamentos vem a tona. O que será esse sentimento que destroi tudo para reconstruir, que transforma tudo para melhorar?
Eis que surge a única certeza. Naquela noite. O amor. O possível.

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